O
monstro dormirá hoje todo o dia.
Hoje
não será dia de excessos, não será dia de pânico
ontem
incendiámos o cubículo e sentá-mo-nos enquanto as chamas consumiam
cimento, tintas e carne.
De
sorrisos largos fizemos elaborados poemas de dor e desespero com
silvos e sangue
no
fim, quando apenas dor e negro se podiam distinguir, enterrá-mo-nos
e dormimos ali.
Hoje,
só eu voltei... não encontro senão o sossego.
Cruzo
a perna, acendo o cigarro e absorvo todo o cinza das nuvens como
conforto da alma seca que agora respira.
Cuspo
terra e fumo no vento forte, aguardo, sem grande força, o
regresso do Tirano.
Retirado
sob os escombros, sonha novas revoluções de braços erguidos e asas
negras reflectindo a noite escura em que nasceu.
A
sua sombra cobrirá a cidade.
Eu
serei o seu capitão, a fúria enraizada no solo, que comanda forças
e demónios depravados que compelidos
no ódio, penetrarão a pureza destilada que os outros usam como
máscara,
lançando
no caos esta realidade onde apenas por infortúnio surgiu, do ventre
de uma mente perversa,o monstro.
E
assim passarão os meus dias, sem culpa ou remorso, desprovidos de
qualquer emoção...
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