sexta-feira, 2 de agosto de 2013

O deserto

Tenho as mãos secas e sós como um tronco morto no deserto.
Tacteando por entre folhas de papel e os lápis das mais diversas cores, procuro a Inspiração...
há semanas senti-a sumir-se na noite e questiono-me se voltará, se quererá voltar a ver-me, se me voltará a fazer sentir.
O meu olhar sobre a folha branca esconde a vontade de a dilacerar, mas jamais o meu ser, apaziguado pela terna melancolia, será capaz de realmente o fazer.
Tenho a sua imagem retida na memória, de costas voltadas, ainda se detém um momento e resiste à tentação de se voltar, parte! Desaparece no infinito da escuridão circundante... Fica uma suave brisa que me embala os cabelos enquanto planto os pés na areia em brasa - temo não a voltar a ver.
Não consigo trazer-me de volta deste maldito deserto para onde me lancei.
Sei que pode não ter sido a melhor ideia encerrar a minha alma na armadura, de que estava certo, me iria assegurar a sua protecção, no entanto, eu é que pareço ter perdido a chave...o acesso ao meu interior...Não sinto sequer a vontade, que imaginei inerente, de me evadir.

Fogem-me as palavras e abandonam-me as ideias. mas não largarei a caneta, secarei até ao pó, neste sol ensanguentado, antes de o fazer.
Reconheço que não levará muito tempo e desanima-me, a cada noite, ouvir o meu buraco abrir-se no solo mesmo a meu lado, onde planeei...
As horas sucedem-se, tudo se vai mutando em redor. E eu... continuo aqui, plantado, aguardo, subsisto.


Sem comentários:

Enviar um comentário