sexta-feira, 23 de agosto de 2013
Foi grande o meu erro
Foi
um erro!Sei-o
agora tal como no primeiro momento, em que tal pensamento, cruzou a
minha mente.Custará,
talvez, a crer que seja possível ter o ser de tal forma subjugado
que o próprio corpo deseja morrer.Queria
paz! E só paz! Se houve dias em que a ousadia tomou forma e ocupou
lugar neste meu gasto coração...Em
que tentei estender a mão a um pouco de felicidade achando não ser
suficiente a paz conquistada,foram
breves os momentos em que acreditei ser digno de tal bênção.Sei-me
na condição de um que fechou os olhos à luz e que agora morre nas
trevas, lentamente, sem que lhe seja permitido o mínimo ruído, a
mínima expressão de dor.Não
rogo aos deuses porque não os acredito.Mesmo
quando estou certo que não serei capaz de desembainhar a espada para
infligir o derradeiro golpe que tantas vezes sonhei.Mas
não será esta espada! Estas mãos... nuas, despidas de armadura,
arma ou intenção, a desferi-lo.Foi
grande o meu erro!Quando
naquela manhã abandonei o mar decidido, abandonei também a
armadura, na areia ainda húmida ficou, tombada. Ela era como uma
crosta, uma segunda pele que usava, dura, feita de naufrágios,
sangue e ossos. Levei minuciosos séculos na sua concepção. Era
impenetrável. Era perfeição!Mas
o meu ser, no seu interior, estava longe disso. Quis ser de novo
homem!Quis
voltar a cheirar a terra em terra, o mar da terra. Quis o mundo dos
homens, quis ser vulgar ou ter algo com que me preocupar. Como estava
enganado na acepção do homem... acabei invulgar na minha
vulgaridade e para não variar nunca descobri o sentido das coisas
que me eram dadas a experimentar. Quis voltar a sentir o calor de um
abraço, esquecida estava a vulnerabilidade de tal movimento, de
braços estendidos e peito aberto, expus-me!Aaaaah!
Maldito serei. No mar, os bravos ensinaram-me a não ouvir os cantos
das mais belas e misteriosas criaturas...Mas,
de novo, quis ser homem!O
homem não se sabe surdo a não ser quando privado da audição, não
se sabe cego a não ser quando privado da visão, não se quer morto
a não ser quando privado da emoção.Queria
a força que temo já não existir. A força para me entregar ao mar
para este me extinguir.No
entanto, estou hoje certo – o mar não irá atender este meu recuo
perante a minha própria decisão.Amotinado
o meu corpo e mente quebraram o selo e este deixou de ser meu e eu
seu.No
mar, era o maior marinheiro, o melhor Capitão.. sabia-o de cor,
reconhecia qualquer horizonte e não precisava de astros ou estrelas
para me guiar... mas era também um seu prisioneiro! O meu mundo,
embora vasto, tinha linhas que eu não era suposto cruzar. Isso fez
crescer em mim o desejo.O
desejo em breve deu lugar à vontade e a vontade por sua vez à
crença. Acreditei haver mais...Foi
grande o meu erro!Caminho
hoje e não flutuo. Sou livre numa breve extensão do meu ser.
Respiro, penso, vivo, sinto, amo, sangro...Aqui,
eu sou! Sou e continuo só...
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