sexta-feira, 9 de agosto de 2013

A árvore

O tempo passa suave na melodia da natureza circundante, há poucas nuvens no céu e o vento ajuda a manter-me sob o sol.
Perto da árvore, que outrora me atirava vezes sem conta ao solo, sou visitado por um sonho inebriante de contornos voluptuosos.
Nele, sou liberdade e pureza. Amor e ódio. Sou o tudo e não sou nada.
Nem sempre habito este cárcere corpóreo, nem sempre sou hábil na sua deposição, mas viajo-me muitas vezes, quase sempre de olhos cerrados, quase sempre ignorando o facto.
Um lobo negro de olhos verdejantes, correndo intrepidamente por paisagens que nunca vi. Sou eu a sua alma, o seu incansável coração, o ar que penetra os seus pulmões, sou as ervas que pisa e a árvore que escolhe para se deitar debaixo de quando o calor aperta. Sou a água que mata a sua sede, as garras, unhas e dentes com que desfaz os seus inimigos... sou eu quem seduz as suas fêmeas e sou eu quem lhes morde forte o pescoço na penetração. O meu espírito prospera e o seu.. uno com o meu, dá asas à sua dinastia.
Sou tudo isto e sem esforço. Sou tudo isto, por não TER de o ser.

Afastado da árvore, onde cedo respirei o ar velho do campo, lanço-me na selva de betão, vagueio embrenhado fundo nas suas artérias.
Prendo-me repetidamente a fugazes sorrisos perdidos na noite, abraço-os próximo nas trevas, para de manhã, bem cedo, beijar o adeus e partir nas ruas ainda húmidas pela chuva límpida que se tem feito sentir.. Gosto da chuva, do cheiro que a sua passagem aqui deixou.
Agarro o hoje sem perspectivas ou desejo no amanhã, mas estes pensamentos não ecoam em mim, vi-os pendurados na parede de um tribunal.

A maior parte dos cães, senhores, nas casas que passo, não se mostram incomodados pela minha presença na sua rua... no seu reino até perder de vista. Sabem-me superior, suponho.
Por vezes antagonizo os que se manifestam desfavoravelmente, mas não sem desconforto. Nunca perco tempo a perceber porque o faço, eles não representam qualquer ameaça.

Quando volto a casa tudo me parece estranho, revolvido... como se outro tivesse vivido ali no curto espaço de tempo em que estive ausente. Ou talvez tenha estado ausente durante mais tempo do que pensava.
Longas horas, ou até mesmo dias, passam até conseguir reconciliar-me, de novo, com os meus objectos...
No centro do meu mundo, majestosa, a minha árvore ergue-se larga, rugosa de braços para os céus. Apenas ela não muda aos meus olhos. A seus pés deito o meu corpo enegrecido, trato das feridas e durmo os meus dias.



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