O
tempo passa suave na melodia da natureza circundante, há poucas
nuvens no céu e o vento ajuda a manter-me sob o sol.
Perto
da árvore, que outrora me atirava vezes sem conta ao solo, sou
visitado por um sonho inebriante de contornos voluptuosos.
Nele,
sou liberdade e pureza. Amor e ódio. Sou o tudo e não sou nada.
Nem
sempre habito este cárcere corpóreo, nem sempre sou hábil na sua
deposição, mas viajo-me muitas vezes, quase sempre de olhos
cerrados, quase sempre ignorando o facto.
Um
lobo negro de olhos verdejantes, correndo intrepidamente por
paisagens que nunca vi. Sou eu a sua alma, o seu incansável coração,
o ar que penetra os seus pulmões, sou as ervas que pisa e a árvore
que escolhe para se deitar debaixo de quando o calor aperta. Sou a
água que mata a sua sede, as garras, unhas e dentes com que desfaz
os seus inimigos... sou eu quem seduz as suas fêmeas e sou eu quem
lhes morde forte o pescoço na penetração. O meu espírito prospera
e o seu.. uno com o meu, dá asas à sua dinastia.
Sou
tudo isto e sem esforço. Sou tudo isto, por não TER de o ser.
Afastado
da árvore, onde cedo respirei o ar velho do campo, lanço-me na
selva de betão, vagueio embrenhado fundo nas suas artérias.
Prendo-me
repetidamente a fugazes sorrisos perdidos na noite, abraço-os
próximo nas trevas, para de manhã, bem cedo, beijar o adeus e
partir nas ruas ainda húmidas pela chuva límpida que se tem feito
sentir.. Gosto da chuva, do cheiro que a sua passagem aqui deixou.
Agarro
o hoje sem perspectivas ou desejo no amanhã, mas estes pensamentos
não ecoam em mim, vi-os pendurados na parede de um tribunal.
A
maior parte dos cães, senhores, nas casas que passo, não se mostram
incomodados pela minha presença na sua rua... no seu reino até
perder de vista. Sabem-me superior, suponho.
Por
vezes antagonizo os que se manifestam desfavoravelmente, mas não sem
desconforto. Nunca perco tempo a perceber porque o faço, eles não
representam qualquer ameaça.
Quando
volto a casa tudo me parece estranho, revolvido... como se outro
tivesse vivido ali no curto espaço de tempo em que estive ausente.
Ou talvez tenha estado ausente durante mais tempo do que pensava.
Longas
horas, ou até mesmo dias, passam até conseguir reconciliar-me, de
novo, com os meus objectos...
No
centro do meu mundo, majestosa, a minha árvore ergue-se larga,
rugosa de braços para os céus. Apenas ela não muda aos meus olhos.
A seus pés deito o meu corpo enegrecido, trato das feridas e durmo
os meus dias.
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