quarta-feira, 30 de julho de 2014

Silêncio

O silêncio, tantas vezes meu irmão nas trevas, faz-se agora sentir como uma espada em chamas cravada no meu interior..
Eterno companheiro que busco sempre antes de fechar os olhos ao dia, dilacera-me do interior, num castigo perpétuo que pareço não saber quebrar. talvez nem o queira..ele recorda-me do que é sentir, mesmo de armadura vestida, recorda-me que fui eu quem baixou a guarda.. Fui eu quem estendeu a mão ao ser que controla a espada.
Agora sangro, bem lá no interior, onde não chego.
Nestas manhãs parece um contra senso vestir a armadura para enfrentar o dia, já que a ameaça vem do meu interior.. está em mim a fonte da minha dor e por pior que me sinta, sou incapaz de culpar a mão que desferiu o golpe ou de me separar dela, o tempo e as circunstâncias fazem-no por mim.
As palavras vou abandonando-as na gaveta, vão-se acumulando as folhas cheias de pensamentos, dores e tormentos. Deponho-as como a um defunto num cemitério, onde estas vão para morrer.
De tempos a tempos, revisito as suas lajes, dedico-lhes a minha atenção e choro a saudade, apenas para depois as voltar a condenar à escuridão, à solidão.. nunca serão proferidas, serão silêncio em mim, este que agora sinto em dor.


Rejeito o dia, não sou capaz de enfrentar este calor quase enlouquecedor.. viajo-me durante a noite, só aí sou, na escuridão, onde vagueio pelas cidades sem ser visto, ou notado..sento-me num qualquer passeio e convido o silêncio a acompanhar-me.. olho o dia nascer, a vida a voltar às ruas, rogo-lhe pragas e procuro fugir da luz do sol que me queima olhos e pele.. Fica a memória, fica o arrependimento de tudo o que ficou por dizer.. meu irmão, o silêncio.